Dragão do Mar: últimos dias de uma travessia pela obra de Milton Nascimento

29 de novembro de 2013 - 09:36

Ponto final. A travessia que o Coral da Universidade Federal do Ceará (UFC) faz pela obra do cantor e compositor Milton Nascimento termina nesse fim de semana. Antes de seguir novo destino, é a última parada do Menino, espetáculo cênico-musical apresentado no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, às sextas-feiras, sábados e domingos de novembro, sempre às 20 horas.

Sob direção e regência dos maestros Erwin Schrader e Elvis Matos e com preparação vocal do maestro Gerardo Viana Júnior, o grupo faz um passeio emocionante por canções do velho menino Bituca, codinome recebido por Milton ainda na infância, vivida em Três Pontas, onde chegou antes de completar dois anos. O espetáculo é uma homenagem cearense ao mineiro de coração, nascido no Rio de Janeiro, que em 2012 completou 70 anos de vida e 50 de carreira e se tornou virtuose da música brasileira, reconhecido mundo afora pelas letras, composições e voz marcantes.

A ambientação cênica do Menino é composta por elementos que lembram os trens, as ferrovias, os sertões e os morros de Minas Gerais, referências e reverências à memória afetiva do homenageado, contada e cantada por ele próprio e pelos companheiros do Clube da Esquina, movimento musical criado nos idos da década de 1960, em Belo Horizonte, para onde o jovem menino já havia partido. O apito da maria-fumaça soava como música sobre os caminhos de ferro que ligavam Minas ao porto, ao mar e a tantos lugares, reais ou imaginários, na vida e na obra do artista.

Durante o espetáculo, os 36 integrantes do coral tornam-se passageiros de um mesmo trem, levando na bagagem o som de violões, flauta e percussão para revisitar um repertório de 19 canções. E o público também embarca numa viagem que vai além dos 70 minutos de trajeto pelas músicas de Milton. Uma ou outra canção ativa lembranças e sensações que recuperam ou ampliam um tempo imensurável: “Coisas bonitas que não deixarão de existir – amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor”, como em Bola de meia, bola de gude, e também solidariedade, liberdade, bravura, patriotismo, utopia, esperança, resistência, desencanto, violência, morte, renascimento, encontros e despedidas.

Pela relevância na obra de Milton, algumas canções não poderiam ficar de fora da seleção feita para o espetáculo. Maria, Maria, interpretada apenas pelos homens do coral, como numa homenagem às mulheres, tem um significado especial para Fortaleza porque embalou os sonhos de uma juventude que, em meados da década de 1980, aspirava um país e uma cidade melhor para viver. Era tempo de redemocratização e a música ganhou as ruas da capital também na campanha de Maria Luiza Fontenele, eleita em 1985 primeira prefeita de capital. Entre os pontos altos do espetáculo, sobressaem-se a versão para Léo, a presença cênica em Coração Civil e a interpretação de O rouxinol, composta pelo artista para o disco Nascimento, de 1997, após a descoberta de uma diabetes que o deixou bastante fragilizado: “Rouxinol tomou conta do meu viver, chegou quando procurei razão pra poder seguir, quando a música ia e quase eu fiquei”.

O figurino, com jeans e camisetas, roupas leves e soltas, reproduz mais do que um estilo de se vestir dos jovens dos anos de 1970; representa um modo de vida e comportamento, entre o idealismo característico de uma geração e um contexto desfavorável de repressão. O regime militar, instalado em 1964 e que se estendeu até 1985, “coincidiu” com o período de maior produção musical do artista – 15 discos dos 35 gravados.

Os preparativos para a viagem que faz o Menino começou em março de 2012, com dois ensaios musicais e um encontro para desenvolvimento de trabalho corporal a cada semana. E nos três meses que antecederam o início do espetáculo, o Coral da UFC passou a incluir mais um encontro semanal para marcação de palco.

No último dia de apresentação nessa primeira temporada, no próximo domingo (1º), o Coral da UFC contará com a participação especial do grupo vocal Coro e Osso, de São Paulo, cantando uma música com o anfitrião. Como o ponto final de uma travessia depende do referencial que se tem, a última parada do Menino também é o começo da preparação para uma nova temporada, que já está marcada para os dois últimos fins de semana de março e os dois primeiros de abril de 2014, também no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Coral da UFC

Em 54 anos de história, o Coral da UFC faz uma caminhada que ultrapassa as fronteiras do Brasil. Desde que foi fundado, em 1959, tornou-se referência para o canto coral brasileiro, apresentando-se por outros estados, e em 1965 fez a primeira apresentação em terras estrangeiras, precisamente no Chile.

O reconhecimento internacional se consolidou com os espetáculos Borandá Brasil e Gonzagas, que tiveram grande repercussão fora do país, por meio de intercâmbios de canto coral estabelecidos com grupos europeus em 2005 e 2007 que resultaram em apresentações em cidades da Polônia, Alemanha e França. Em 2011, o intercâmbio proporcionou a realização de espetáculos em quatro cidades da Austrália.

Borandá Brasil foi um recital que incluiu obras do cancioneiro erudito nordestino e brasileiro, ressaltando ritmos como maracatu, xaxado, xote, baião, samba e marcha. Já o espetáculo Gonzagas se desenvolveu em torno de 20 músicas do Rei do Baião, Luiz Gonzaga (1912-1989), e do seu filho, Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha (1945-1991).

Grupo musical sem fins lucrativos, o Coral da UFC faz um trabalho de educação musical com jovens universitários, trabalhadores e pessoas da comunidade e tem se dedicado ao longo dos últimos 25 anos a pesquisa e construção de repertório brasileiro explorando as possibilidades do canto com o espaço teatral em suas diversas linguagens. O grupo passou a associar a música a outras manifestações artísticas, valorizando a presença cênica e transformando a apresentação em um autêntico espetáculo, com interpretação, coreografia, figurino, cenografia e iluminação.

O coral nasceu junto com a Universidade Federal do Ceará. Em abril de 1959, aconteceu o primeiro recital do então Madrigal do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, em Sobral, e cinco anos depois, em 1964, já se chamava Madrigal da Universidade do Ceará. Em 1973, após três anos de silêncio, ressurgiu como Coral da UFC, já totalmente desligado do Conservatório de Música.

Serviço
Últimos dias da primeira temporada do espetáculo Menino – Coral da UFC

Local: Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema)
Período: sexta-feira (29), sábado (30) e domingo (1º)
Horário: 20 horas
Ingressos: R$ 20,00 (inteira); R$ 10,00 (meia)