Projeto “Patrimônio Para Todos” recebe prêmio nacional de Inventários Participativos e investirá em acessibilidade digital

16 de fevereiro de 2024 - 18:04 # # # #

Ascom Secult Ceará - Marina Holanda

Iniciativa é um dos destaques em exposição celebrativa aos mais de 20 anos da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, no Museu da Cultura Cearense.

Monitores da edição 2023 produzem registros de cinco bairros de Fortaleza. / Foto: Jeny Sousa

O Projeto Patrimônio para Todos (PPT) Uma aventura através das memórias é o segundo colocado no I Prêmio Inventários Participativos, realizado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão vinculado ao Ministério da Cultura. O projeto é uma iniciativa da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho (EAOTPS), equipamento da Secretaria da Cultura do Ceará, gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar. O valor do prêmio será destinado à criação de plataforma digital visando a acessibilidade ao acervo de fotografias, entrevistas e informações coletadas de patrimônios culturais eleitos pelas comunidades.

Com 15 anos de atividade, o Projeto Patrimônio Para Todos é considerado uma das iniciativas mais longevas de educação patrimonial do Ceará, tendo passado por transformações, atento às demandas do tempo presente. Um pouco desse legado estará presente na exposição “Patrimônios, Memórias, Artes e Ofícios”, sobre os mais de 20 anos de atuação da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. O público poderá conferir uma exposição fotográfica assinada por Jeny Sousa e Francisco Flor, com referências culturais identificadas por jovens participantes do projeto. O evento de abertura ocorrerá na quarta-feira (28), às 19h, no Museu da Cultura Cearense, situado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Segundo o idealizador do projeto, João Paulo Vieira, historiador mestre em patrimônio e atualmente à frente da coordenação de acervos do Museu da Imagem e do Som (MIS Ceará), “a longevidade desta iniciativa é um testemunho do seu impacto contínuo de sensibilização de diversos territórios sobre a importância do patrimônio, da realização de oficinas de educação patrimonial e de inventários participativos sobre outras referências culturais”, destaca.

A gestora executiva da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, Maninha Morais, ressalta a importância do projeto e sua contribuição formativa na vida dos jovens alcançados pela iniciativa. “O Patrimônio para Todos tem ajudado a despertar na juventude uma consciência crítica sobre o que é patrimônio e qual a importância de preservar e documentar a história e a memória. São os jovens que identificam o que merece ser reconhecido, difundido e preservado em suas comunidades, nos ajudando a montar um valioso inventário de patrimônios que muitas vezes são invisibilizados e não consagrados. O prêmio do Ibram é mais um reconhecimento da importância do projeto para as várias comunidades visitadas e para o estado do Ceará”, afirma.

Desde 2009, o projeto Patrimônio Para Todos não se limitou a registrar os bens consagrados, mas buscou ativamente ir além, incentivando as próprias comunidades, grupos e coletivos a participarem ativamente desses processos. Atualmente, João Paulo acompanha o crescimento do projeto enquanto consultor e evidencia a abordagem participativa e inclusiva como principal diferencial, fundamental para dar visibilidade às diversas referências culturais cearenses. “Que esses 15 anos sejam apenas o começo de muitos outros processos de educação patrimonial e inventários participativos, que nos permitam refletir criticamente sobre a diversidade das memórias, das histórias e dos patrimônios desse caleidoscópio identitário que é o estado do Ceará”, afirma João Paulo.

Olhares inovadores para o passado, presente e futuro

A Constituição brasileira determina que o conceito de “patrimônio” deve ser representativo da identidade e da memória de todos os grupos que compõem o povo brasileiro. O projeto Patrimônio Para Todos, desta forma, possui uma metodologia que prioriza o fortalecimento das histórias locais, de grupos, de periferias, e ações cotidianas. As pessoas que vivem e constroem essas manifestações estão em contato diário com o Patrimônio, no entanto, segundo a coordenadora Hannah Mariah, seu vocabulário formal não é agregado a essas experiências.

Historiador e idealizador do PPT, João Paulo Vieira; a coordenadora Hannah Mariah e a monitora pedagógica Lucrécia Nascimento, no lançamento da edição 2023 do PPT, no MIS-CE. / Foto: Jeny Sousa.

A atual coordenadora do projeto PPT, Hannah Mariah, é mestranda em História e expressa seu interesse pelas micro-narrativas presentes nas esquinas, nos becos, nas vielas e que fogem ao olhar acelerado da cidade. “Quando eu entrei no projeto em 2022, fui facilitadora nas oficinas que aconteceram no bairro Jangurussu. Fiquei muito entusiasmada em poder compartilhar uma metodologia participativa e ir construindo conjuntamente algo que faz sentido para as pessoas da comunidade. O Patrimônio Para Todos tem a beleza de fazer com que as pessoas enxerguem a cultura em seus cotidianos”, completa.

Nesta edição de 2023, vivências de campo e oficinas do Projeto Patrimônio Para Todos foram realizadas em cinco territórios de Fortaleza, repletos de marcadores culturais e identitários, sendo eles: Canindezinho, Conjunto Ceará, Mucuripe, Serrinha e Poço da Draga, onde os patrimônios foram eleitos pelos próprios moradores. “Essa é a perspectiva que a gente trabalha, em que ninguém pode dizer o que é patrimônio, a não ser quem mora e quem vive aquela realidade”, reforça a coordenadora do PPT.

I Prêmio de Inventários Participativos

 

Oficina no Mucuripe / Foto: Jeny Sousa

A premiação é uma realização do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão vinculado ao Ministério da Cultura, com o intuito de reconhecer nacionalmente iniciativas que contribuam para a preservação e promoção do patrimônio cultural e da memória social de grupos, povos e comunidades representativas da diversidade cultural brasileira. Mais de 70 instituições de todo o Brasil se inscreveram para concorrer ao Prêmio. Cada uma das 10 instituições selecionadas receberá uma premiação de R$ 40 mil.

“Esse é um destaque notável para a política de patrimônio do Ceará, e demonstra a excelência, a continuidade e o compromisso que o projeto tem com a preservação e a promoção do patrimônio cultural. A Escola, por meio do PPT, estimula a formação de sujeitos mais conscientes e engajados na promoção de nossas heranças culturais, fortalecendo a posição do estado do Ceará dentro do cenário do patrimônio cultural brasileiro. Não apenas valida o esforço e dedicação da equipe envolvida em todo o projeto, mas também demonstra que o Ceará valoriza e se destaca em práticas inovadoras e eficazes de identificação, promoção e difusão do patrimônio cultural brasileiro. O prêmio irá possibilitar a criação de uma plataforma para compartilhar seus conhecimentos, abrindo horizontes para futuras colaborações e parcerias em nível nacional”, destaca João Paulo Vieira.

“A premiação do Ibram traz um ciclo de novas possibilidades para pensarmos quais são os desejos e necessidades do projeto. É uma felicidade muito grande poder ampliar a forma de divulgação desse mapeamento por meio das comunidades. É fundamental para o nosso trabalho pensar e repensar quais são as devolutivas e necessidades do projeto, no sentido de como continuar impactando a vida dessas pessoas que toparam participar”, enfatiza a coordenadora Hannah Mariah.

Conquistas coletivas e crescimentos conjuntos: alunos que viram profissionais na Escola 

Foto: Jeny Sousa.

A partir da sua experiência positiva enquanto facilitadora, Hannah foi convidada para ser coordenadora do PPT. Ela conta que esta é uma política da casa. “A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho tem como motivação encontrar dentro dos seus alunos as pessoas que estão se instruindo e se aperfeiçoando. A partir desse movimento de olhar de dentro pra fora, muitos dos alunos passam a compor a casa enquanto trabalhadores, enquanto prestadores de serviço. Pessoas que estão ali para construir ativamente esse conhecimento que é compartilhado por meio da escola”, compartilha.

Além de Hannah Mariah, há o exemplo da produtora do projeto, Bel Rodrigues, que foi aluna do curso de Restauração da Escola, assim como a monitora pedagógica Lucrécia Nascimento e Clara Araújo, que foi monitora técnica do ano passado. “É uma grande felicidade poder ter pessoas que passaram por esse ciclo formativo dando continuidade agora em um novo papel, com outras responsabilidades”, destaca Hannah.

Turma do PPT em ação de campo, em espaço cultural no bairro da Serrinha. Foto: Jeny Sousa.

Outra experiência desta política de permanência e aproveitamento dos talentos que passam pela Escola, é a de Bruna Vale, ex-aluna do curso de Restauração e facilitadora da edição 2023 do Projeto Patrimônio Para Todos. Recém formada em arquitetura e urbanismo, tinha interesse pela área de patrimônios edificados e realizou seu trabalho de conclusão de curso sobre o bairro Jacarecanga. Ingressou em 2023 como facilitadora do projeto Patrimônio Para Todos atuando no bairro da Serrinha. “Me interessei pelo campo prático, em como eu poderia aplicar conhecimentos, tanto na dimensão material quanto imaterial do patrimônio”.

Bruna conta que nunca havia ministrado aulas, e se encantou com a experiência junto aos estudantes do ensino médio da Escola Jader Carvalho, que recebeu a ação formativa do PPT. “O diferencial desse projeto é a oportunidade de desmistificar o conceito de patrimônio. A gente não chega dizendo pra eles o que é patrimônio, são as pessoas dos territórios que elencam esses bens, entendendo que patrimônio pode ser uma comida, um lugar de lazer coletivo, uma pessoa antiga da comunidade…”

As turmas desenvolvem mapas afetivos dos bairros, e nesta última edição, foram levantados em torno de 80 patrimônios; dentre festividades, guardiões da memória, lendas urbanas, artistas independentes e coletivos. “A gente tem que conhecer a história de onde a gente mora. Ter essa referência desde criança é muito importante. Fico muito feliz em contribuir com a difusão desse conhecimento e do pertencimento a partir da identificação dos patrimônios culturais junto com a comunidade. A favela é um lugar muito fértil de cultura. Essa experiência abriu muitos horizontes e me despertou interesse em seguir nessa área patrimonial e cultural profissionalmente”, completa Bruna.

A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho é um equipamento da Rede Pública de Equipamentos Culturais da Secretaria da Cultura do Ceará, gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM). A EAOTPS tem 20 anos de atuação no campo da conservação e restauração de bens patrimoniais de acervos museológicos, desenvolvendo projetos pedagógicos junto ao público jovem.

Projeto Patrimônio para Todos (PPT) – Uma aventura através das memórias” tem o intuito de sensibilizar jovens moradores de territórios em situação de vulnerabilidade social sobre a importância de conhecer e promover a diversidade do patrimônio cultural, a partir de oficinas de educação patrimonial e da realização de inventários culturais participativos. Desde 2009, o projeto teve sete edições e percorreu 19 municípios cearenses e 32 bairros de Fortaleza/CE.