Com apoio da Secult Ceará, Instituto Moreira Salles publica livro sobre a obra do fotojornalista cearense Luciano Carneiro

20 de outubro de 2020 - 16:20

Fidel Castro e Juscelino Kubitschek, em frente ao Palácio da Alvorada. Brasília, maio de 1959. Acervo Jornal Estado de Minas/ Revista O Cruzeiro

A publicação será lançada no dia 22 de outubro (quinta-feira), às 18h, em uma live no YouTube do IMS. O livro é resultado de uma parceira do IMS com a Fundação Demócrito Rocha, de Fortaleza, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará

Em sua breve e profícua carreira como fotojornalista, o cearense Luciano Carneiro (1926-1959) documentou eventos históricos que marcaram a década de 1950, como a Guerra da Coreia e a Revolução Cubana. Também produziu grandes reportagens sobre aspectos da realidade brasileira, de conflitos fundiários a atos estudantis. Sua obra é tema de um novo livro, publicado pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a Fundação Demócrito Rocha.

Intitulada Luciano Carneiro – Fotojornalismo e reportagem (1942-1959), a publicação será lançada no dia 22 de outubro (quinta-feira), às 18h, em uma live no YouTube do IMS. Em um primeiro momento, haverá uma breve conversa com os organizadores do projeto: Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS e organizador do livro, Marcos Tardin, diretor da Fundação Demócrito Rocha, e Fabiano Piúba, Secretário da Cultura do Estado do Ceará.

Em seguida, será realizado um debate sobre o tema “Imagem e engajamento: o fotojornalismo humanista da década de 1950 e a fotografia documental contemporânea”. A conversa contará com a presença da historiadora Erika Zerwes e dos fotógrafos Tiago Santana e Victor Moriyama, além de mediação de Sergio Burgi. A live será transmitida ao vivo no YouTube do IMS.

Nascido em Fortaleza em 1926, Luciano Carneiro teve uma trajetória rápida e abrangente. Aos 16 anos, iniciou sua carreira no Correio do Ceará. Em 1948, ingressou na revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro, onde se consagrou como fotojornalista. Além de produzir as imagens, muitas vezes assinava os textos das matérias. Ao longo de 11 anos de atividade na revista, cobriu temas brasileiros e internacionais, viajando do Japão à União Soviética, do Egito de Nasser à Iugoslávia de Tito. Em 1959, aos 33 anos, sua trajetória foi interrompida bruscamente, quando faleceu em um acidente de avião, no retorno de um trabalho em Brasília.

Este livro é o primeiro a percorrer de forma abrangente a carreira e obra de Carneiro, cujo acervo está, em parte, sob a guarda do IMS. A publicação reúne mais de 170 imagens e cerca de 35 matérias. Também apresenta uma cronologia detalhada da vida do fotógrafo. O material exibido no livro provém do acervo de Carneiro e dos arquivos da revista O Cruzeiro, hoje parte do acervo do jornal Estado de Minas.

Na equipe de O Cruzeiro, Carneiro atuava ao lado de uma nova geração de fotógrafos, como José Medeiros, Flávio Damm e Henri Ballot. Inspirados no chamado fotojornalismo humanista, que surge no pós-guerra com nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, buscavam construir narrativas críticas, com o teor autoral e engajado com as questões sociais.

Foi com essa perspectiva, em um contexto de Guerra Fria marcado pela polarização, que Carneiro rodou o mundo. Uma de suas principais coberturas – que ganha destaque no livro – foi a da Guerra da Coreia. Em 1951, conseguiu obter credenciais para entrar no país, tornando-se, com apenas 25 anos, um dos únicos repórteres sul-americanos a cobrir o conflito. Carneiro publicou um total de 10 matérias sobre a guerra. Fotografou Seul destruída, acompanhou tropas turcas e colombianas, retratou militares feridos, prisioneiros de guerra e civis em fuga. Também foi um dos quatro correspondentes que saltou de paraquedas ao lado do exército americano sobre as linhas inimigas na Coreia do Norte.

A publicação também destaca a cobertura da Revolução Cubana. No início de 1959, Carneiro acompanhou os momentos finais da queda do regime de Fulgêncio Batista. O fotógrafo documentou a entrada de Fidel Castro em Havana, entrevistando o líder revolucionário e outros dirigentes. Também testemunhou os julgamentos e fuzilamentos de oficiais da repressão do antigo regime. Em maio de 1959, registrou a visita de Castro a Brasília, onde o líder cubano foi recebido por Juscelino Kubitschek.

Outro marco de sua carreira – presente no livro – é a série de reportagens produzidas na União Soviética, em 1957. Após ter seu visto negado várias vezes, Carneiro conseguiu finalmente entrar no país, onde registrou a cultura e o cotidiano de Moscou, com destaque para temas como a presença das mulheres nos postos de trabalho, a valorização da ciência, além do registro das paradas militares. Em suas viagens pelo mundo, entre 1954 e 1956, documentou ainda o Egito pós-revolução, presidido por Muhammad Naguib e Gamal Abdel Nasser.

Com sua câmera, também rodou o Brasil, captando as tensões e contradições que marcavam o país em um momento de modernização. Uma das principais reportagens dessa época é sobre a revolta dos posseiros de Formoso e Trombas em Goiás, em 1957. Carneiro registrou as atividades políticas do líder da rebelião, José Porfírio de Souza, agricultor que viria a ser perseguido pelo regime militar após 1964, tornando-se um dos desaparecidos políticos do período.

No Rio de Janeiro, acompanhou a luta dos estudantes por melhores condições de ensino e documentou eventos cotidianos, como os desfiles de Carnaval e as partidas de futebol. As heranças do cangaço e a seca do Nordeste, entre tantos outros temas, também foram captadas pela câmera do fotógrafo em sua curta, porém consagrada, trajetória.

Com o lançamento dessa publicação, o IMS, a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e a Fundação Demócrito Rocha reforçam a importância do legado de Carneiro para o fotojornalismo brasileiro. Um profissional aficionado, sobretudo, por sua prática, como afirma em suas próprias palavras: “Meu Deus, a vida é tão rica de sugestões, há tanta poesia perdida até no meio da rua, que basta a gente manter os olhos abertos, e a máquina pronta, para selecionar as imagens que tenham significação, e assim interpretar a vida. Eis a fórmula. O resultado, este depende da sensibilidade e da experiência do homem que fica por trás das lentes.”

Sobre o acervo de Luciano Carneiro

Em 2012, o Instituto Moreira Salles adquiriu da família de Luciano Carneiro seu acervo fotográfico. A coleção era composta por 136 cópias ampliadas de fotografias. Em 2016, um segundo conjunto de imagens originado da família do fotógrafo somou-se ao primeiro. Neste mesmo ano, sua obra foi tema da exposição Do arquivo de um correspondente estrangeiro: fotografias de Luciano Carneiro, exibida nas sedes de São Paulo e de Poços de Caldas. Em 2018, o IMS organizou a mostra Luciano Carneiro. O olho e o mundo, apresentada no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. Entre 2018 e 2020, os pesquisadores do IMS revisaram toda a obra de Carneiro reunida no arquivo da revista O Cruzeiro, sob a guarda do jornal Estado de Minas. Desse intenso processo de exploração e curadoria, surgiu a presente publicação, resultado das pesquisas realizadas em mais de 20 mil imagens produzidas pelo fotógrafo em sua carreira.

Serviço

Live de lançamento do livro Luciano Carneiro – Fotojornalismo e reportagem
22 de outubro (quinta-feira), às 18h
Ao vivo no YouTube do IMS: youtube.com/user/imoreirasalles

Luciano Carneiro – Fotojornalismo e reportagem (1942-1959)
Organização: Sergio Burgi
São Paulo: IMS/FDR, 2020
256 pp.
ISBN 978-65-88251-00-3
R$ 129,50

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