Segundo dia da XIII Bienal Internacional do Livro e da Leitura teve encontros ricos

18 de agosto de 2019 - 13:49

Segundo dia da XIII Bienal Internacional do Livro e da Leitura teve encontros ricos em vários momentos da programação

O IV Salão do Professor realizou sua abertura com participação das escritoras Angela Gutiérrez e Ana Miranda 

Qual o seu livro favorito? Que memórias literárias guardam sua infância? Quais afetos atravessam sua relação com a leitura? Entre outras questões, essas reminiscências deram o tom do segundo dia da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, logo pela manhã, com a abertura do IV Salão do Professor.

Em uma conversa descontraída, as escritoras cearenses Ana Miranda e Angela Gutiérrez fizeram da mesa “Memórias, afetos e leituras na escola” um dos momentos mais bonitos do dia, ao compartilharem suas experiências mais antigas com os livros.

“Tive sorte de nascer em uma ‘casa-biblioteca’, que era a do meu avô, Dr. Cesar Rossas. Os livros espalhavam-se, tomavam os corredores. Morei lá até os cinco anos, mas tenho lembranças imensas. Como o primeiro livro a que tive acesso, ’O Inferno de Dante’.  Fiquei com os cabelos em pé de horrorizada, e depois meu pai precisou explicar aquele conteúdo”, contou Angela, entre risos da plateia.

“Depois disso nos mudamos para um sítio no Mondubim, onde continuei tendo acesso uma rica biblioteca, dessa vez do meu pai. Novamente, tive muita sorte, porque ele era um verdadeiro mediador de leitura. Ia escolhendo os livros, me entregava e todo dia, quando chegava em casa, perguntava se eu tinha lido, o que tinha achado. Muitas das minhas brincadeiras envolviam as histórias e personagens desses livros. Então minha formação como leitora foi mais em casa do que na escola”, contou a escritora.

Para Ana Miranda, a estreia foi mais adequada, mas não menos memorável. “Uma das minhas primeiras leituras foi o Patinho feio, que não era o ‘Inferno de Dante’, mas era um tipo de inferno, a sensação de inadequação daquele personagem”, brincou, comparando.  “Quando criança eu mentia muito, inventava histórias sobre o que tinha acontecido no dia e contava à minha irmã”, continuou. “Quando descobri ‘As aventuras do Barão de Munchausen, que era um grande de um mentiras, fiquei tão feliz!”, seguiu, arrancando mais risos dos presentes.

Além do ambiente familiar, Ana recordou também uma experiência na escola: “havia uma disciplina maravilhosa chamada Biblioteca, imaginem isso! A grade era muito boa, tinha conteúdos diversos. É o que precisamos hoje, de uma educação mais ampla, mais humanista”, pontuou. “Tinha também a aula de redação, que desgraça era fazer redação todo dia. Detestava, era trabalhoso, difícil. Mas tenho certeza que forma essas aulas que me ensinaram a escrever”.

A paixão pelos livros e pela leitura não apenas ficava clara a cada depoimento das duas, mas chegava àquele lugar difícil: de inspirar quem ouve. “Acho que li mais do que vivi, e me orgulho mais dos livros que li do que daqueles que escrevi”, reconheceu Angela. “É impossível viver sem ler. A leitura é uma busca por entender o outro”.

Prestes a sair da casa onde mora e se mudar para um apartamento, a escritora lamenta o corte que precisará fazer em sua biblioteca. “Ficou tão grande que fui expulsa do meu escritório pelos livros, pela falta de espaço”, brincou. Alguns vou doar para a Academia Cearense de Letras (que tem em Angela Gutiérrez sua primeira presidente mulher), outros para outras instituições. Como vou ficar sem meus queridos amigos? Há livros que não gosto apenas de ler, mas de ter perto de mim. Vai ser um drama!”, riu.

Por fim, citou “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, como um dos livros que mais lhe impactaram e do qual tirou uma lição de vida. “Quando li a frase ‘mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende’, isso se tornou um lema na vida profissional. O professor é um eterno aprendiz”.

A programação do IV Salão do Professor continua até quinta-feira (22), dentro da Bienal, com temas que passam pela escrita feminina, resistência étnica-racial e educação, biblioteca na escola e ambientes universitários.

A sensibilidade dos olhares viajantes

No segundo dia da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, o eixo As Cidades e os Livros reuniu Tércia Montenegro e Jorge Agualusa

Uma cidade pode ser explorada a partir de diferentes aspectos: arquitetura, comida, música. E, sim, pela literatura. Foi o que mostraram os convidados da mesa “Viajantes: Lugares do Mundo”, um dos destaques da programação do segundo dia da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, que reuniu o escritor e editor angolano de ascendência portuguesa e brasileira José Eduardo Agualusa e a escritora cearense Tércia Montenegro.

Em um bate-papo conduzido a partir da leitura de trechos de livros de ambos, eles discorreram sobre seus territórios geográficos e afetivos, sobre a construção simbólicas de suas cidades – as de origem, de morada, de visita e da ficção -, sobre viagens e andanças permeadas por suas subjetividades.

“As cidades são sempre inventadas, o escritor cria universos. Se tiver sorte essa cidade caba sendo assimilada pela realidade. Hoje as pessoas vão a Ilhéus, por exemplo, em busca da Ilhéus de Jorge Amado”, comparou Agualusa.

Sobre a relação entre literatura e viagem, Tércia enxerga uma ligação inexorável: “a leitora que fui e que sou estimula a viajante. Antes de conhecer uma paisagem fisicamente posso conhecê-la pelas letras. Muitas vezes fui a Recife em busca de Clarice, ou a São Paulo em busca de Lygia Fagundes Telles. Também vou em busca de lugares povoados por outras artes, pela pintura, pela dança”.

Agualusa, por sua vez, argumentou achar necessário, em algum momento, separar as duas instâncias. “Depois que se conhece um lugar acho importante esquecê-lo. Um romance não é um guia de viagens, mas outra coisa, uma criação. Então é bom que o lugar esteja inteiramente eliminado na sua cabeça, de forma que possamos reinventá-lo”, pontuou.

“Certa vez estive em Luanda com meu editor e ele disse sentir-se enganado, que conhecia Luanda pelos meus livros, mas naquele momento via que era outra coisa. E de fato é outra coisa, é minha Luanda ficcional. Há tantas Luandas quanto pessoas que nela vivem ou visitam”. Tietado, ao fim da conversa Agualusa fez questão de atender todos os fãs, que formaram uma longa fila para autógrafos e fotos.

O salão Terreiro em Sonho segue até dia 25 (domingo) reunindo grandes nomes da literatura, do livro e da leitura, do Ceará, de outros Estados e países, entre eles Marcio Souza (MA), Telma Pacheco (CE), Vera Duarte Pina (Cabo Verde), Maria Valéria Rezende (PB), Nicolas Behr (DF), Chico Alvim (DF), Kaká Werá (SP), Daniel Mundukuro (SP), Ronaldo Correia de Brito (PE), Dina Salústio (Cabo Verde), Gilmar de Carvalho (CE), Pedro Salgueiro (CE), Conceição Evaristo (RJ), Marion Bloem (Amsterdã) e Bel Santos (SP).

Obras revolucionárias na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará

No segundo dia de programação o eixo Livro Técnico e Acadêmico trouxe a pesquisadora Lucia Santaella e o filósofo e linguista Marcos Bagno

Na sala Paulo Freire, dentro da XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, a estreia do eixo Livro Técnico e Acadêmico foi em grande estilo, com duas palestras de obras marcantes na história brasileira da Comunicação e da Educação. Pela manhã, o pontapé inicial foi com a professora e pesquisadora Lucia Santaella, por ocasião dos 15 anos do seu livro “Cultura e Artes do Pós-Humano: da Cultura das Mídias à Cibercultura”.

Ao longo de sua carreira, Santaella abordou e contribuiu para a construção de conceitos como biotecnologia, corpo biotecnológico e virtualização da mente. “Na época do lançamento do ‘Cultura e Artes’ ninguém sabia do que estava falando. Então para a editora que publicou o livro, a Paulus, foi uma grande aposta”, recordou a pesquisadora. “Agora ele já está em sua sétima ou oitava reedição, e ganha mais um reconhecimento com esse convite de integrar a lista de obras revolucionárias da Bienal Internacional de Livros do Ceará”, comemorou.

Durante sua fala, Santaella adiantou o título de sua próxima publicação: “Do pós-humano ao neo humano: a sétima revolução cognitiva do Sapien”.  “Somos sujeitos tecnológicos por natureza. O ser humano é, por exemplo, o único animal que fala, graças ao seu aparelho fonador, que ‘roubou’ funções da respiração e da deglutição. Nosso aparelho fonador já é uma tecnologia”, comparou.

“Rapidamente o ser humano deu-se conta de que a memória biológica é muito fraca para dar conta de guardar tudo. Aí começaram as pinturas nas cavernas, para eternizar o que o cérebro mortal não consegue. Depois veio a escrita, o mundo da impressão, a cultura de massa. A invenção da fotografia, do cinema, rádio, televisão. Somos sujeitos tecnológicos”, reforçou.

À tarde foi a vez de Marcos Bagno conversar com uma sala cheia sobre sua clássica obra “Preconceito linguístico”. Aplaudido em vários momentos, Bagno esclareceu distorções relacionadas à definição de preconceito linguístico e relacionou a obra ao atual momento sociopolítico do País – definido por ele como uma “absoluta tragédia social” empreendida com a chancela do governo federal. O filósofo e linguista não poupou duras críticas ao atual governo do País, classificando-a como um projeto de destruição.

Entre as distorções, Bagno mencionou o contexto em sala de aula. “Preconceito linguístico significa que o professor não deve mais corrigir o aluno? Não, em nenhum momento dizemos isso. O fato de todas as variedades linguísticas se equivalerem não impede que professor não deva ampliar o repertório lingüístico do aluno e chamar sua atenção para a instrumentalização da língua como fator de exclusão social”, esclareceu.

Bagno citou o fato de muitas pessoas atrelarem a ocorrência da variação linguística às classes sociais mais pobres ou menos letradas, quando, segundo ele, trata-se de um fenômeno inerente à língua. “Pode estar presente na fala da pessoa com três doutorados”, brincou. Mencionou ainda exemplos hoje ultrapassados, mas ainda utilizados para falar de variação linguística. “Sempre recorrem às mesmas coisas: uma tirinha do Chico Bento, uma música de Luiz Gonzaga ou de Adoniran Barbosa, um poema de Patativa do Assaré”, criticou.

“Nada disso serve para ensinar variação linguística. Chico Bento é uma estilização, um suposto falar caipira do interior de São Paulo de quando Mauricio de Sousa era criança, que nem existe mais. Muitas das letras cantadas por Luiz Gonzaga forma compostas por Humberto Teixeira, que era advogado. Se quer trazer exemplos de variações linguísticas traga aqueles reais, atuais. Faça gravações, registros”, completou.

Encontro O Livro e seus Mercado tem primeiro dia marcante na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Superar modelos de negócios, pensar estratégias para o cenário de crise e manter a resistência forma aspectos abordados nas conversas

No eixo O Livro e seus Mercados, o professor e editor José Castilho, grande referência quando se fala em mercado editorial no País, iniciou a discussão que deve pautar o encontro pelos próximos dois dias: quais as perspectivas para o setor em meio a uma crise econômica e em um cenário de retrocesso nacional no campo da cultura? O que se pode esperar e que estratégias podem ser adotadas pela cadeia produtora?

Para Castilho, a estratégia mais urgente é a mais óbvia: voltar às origens. “Precisamos cuidar mais da qualidade do que publicamos, temos uma responsabilidade como editores. Devemos retomar o ofício, que está sendo abandonado.  Resgatar o fenômeno do editor, que sabe o que publica, que lê o que publica, isso não está sendo exercido. Sair dos modismos dos best sellers e trabalhar com títulos que façam parte da formação cultural e educacional da nossa sociedade. O editor é um formador de opinião”, observou.

“Enquanto não percebermos que nosso problema é formar leitores e parar de perdê-los, não vamos sair do lugar. É preciso enfrentar com seriedade as dificuldades históricas do setor, os empresários precisam racionalizar essas ações, fazer o enfrentamento real dos problemas, baseado em análises verdadeiras, não em lobistas profissionais”, completou Castilho. “O modelo de negócios que temos para o setor precisa ser superado, e o momento de superar é na crise”, resumiu.

A discussão seguiu pela tarde, com a mesa Economia Colaborativa, a Sustentabilidade de Pequenas e Médias Editoras e Livrarias. Talles Azigon, produtor cultural,  editor, mediador de leitura, contador de história e criador da editora Substânsia; Ana Dantes, da Editora Dantes (RJ); Guarani Rodrigues, administrador da Livraria Lamarca; Rosel Soares, da editora Casarão do Verbo (BA); e Simone Paulino, jornalista, escritora e fundadora da Editora Nós, conversaram sobre o atual cenário, as mudanças percebidas e as estratégias de quem resiste e insiste à margem do mercado editorial “mainstream”, com suas grandes empresas e cadeias, que hoje quebram diante da crise.

“Sabemos que nós (editores independentes) pensamos os livros sob outro valor além do dinheiro. Mas quando se tem uma editora é preciso pensar nesse aspecto. É muito difícil fazer a conta do livro no mercado. As livrarias ficam com pedaço grande do valor, enquanto o editor é a cabeça de toda a cadeia. É ele que paga antecipadamente o autor, que compra o papel, sem saber quando esse dinheiro vai voltar. E ele volta gradualmente, ao longo de meses. Então é um trabalho de semeadura”, resumiu Ana Dantes.

A partir daí a editora ressaltou estratégias que têm funcionado na Dantes. “Partimos para outras ações, desdobramentos para o livro. Cada publicação traz uma estratégia de como entrar no mercado. Ela pode virar uma coleção de roupas, por exemplo, ou um ciclo de estudos”.

Ao mesmo tempo em que elegeu o atual momento como uma oportunidade para editoras independentes se sobressaírem pela criatividade, criticou a postura de grandes livrarias e empresas que, diante da falência de seus modelos, apropriam-se de estratégias já praticadas pelos pequenos e médios empreendedores editoriais, em um movimento novamente predatório. “Eles tiveram a ideia de fazer o que já estamos fazendo, em vez de pensar ‘vamos colocar nossa banca naquela feira, naquela livraria, dar uma força’”, criticou.

O encontro O Livro e seus Mercados segue até o dia 19 (segunda-feira), com a presença de profissionais ligados a diferentes nichos da cadeia, como tecnologias de produção, design editorial e literatura e mercado audiovisual.

 

Mais informações sobre a Bienal do Livro: https://bienaldolivro.cultura.ce.gov.br/a-bienal/