“Não existe Chico sem Matilde” pauta edição especial do Margem da Palavra
14 de abril de 2026 - 14:22 #Dragão Do Mar
Ascom Dragão do Mar
Programa promovido pelo Centro Dragão do Mar e Bece reúne, no dia 22 de abril, Cidinha da Silva e Bárbara Carine para debater o protagonismo das mulheres em lutas antirracistas nos 27 anos do CDMAC

Bárbara Carine
O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e a Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece) — espaços que integram a Rede Pública de Equipamentos Culturais (Rece) do Governo do Ceará, vinculada à Secretaria da Cultura (Secult) e geridos em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM) — realizam a terceira edição do programa Margem da Palavra, ação integrada que propõe encontros mensais em torno da literatura e da oralitude, unindo ditos e escritos como estratégia de ampliação das possibilidades de leitura de mundo. Nesta edição especial, que acontece no dia 22 de abril, às 19h, no Minianfiteatro do CDMAC, com entrada gratuita, o programa se integra à semana de celebração dos 27 anos do Dragão do Mar, assumindo como eixo de pensamento o tema “Não existe Chico sem Matilde”.
Neste mês, em consonância com a temática de aniversário do CDMAC, o encontro entre literatura, memória e história evoca a figura de Matilde Maria da Conceição, mulher negra e mãe de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, para dar início ao debate crítico sobre o protagonismo das mulheres em lutas antirracistas e por direitos historicamente negados. Ao trazer as mulheres negras para o centro da narrativa, o Margem da Palavra convida o público a pensar com as “Matildes” que estão por toda a parte, legando seus exemplos e sua matripotência para a reconstrução de uma contra-história ou meta-história do Brasil.
Em abril, o programa recebe duas importantes vozes do pensamento contemporâneo brasileiro. A escritora, pensadora e ensaísta Cidinha da Silva, autora de 24 livros que atravessam gêneros como crônica, conto, dramaturgia e ensaio, traz em sua trajetória obras reconhecidas nacionalmente, como “Um Exu em Nova York”, premiado pela Biblioteca Nacional em 2019; “O mar de Manu”, laureado pela APCA em 2022; e “Vamos falar de relações raciais?”, finalista do Prêmio Jabuti em 2025. Sua escrita investiga as relações raciais, a memória e a experiência negra no Brasil, articulando literatura e pensamento crítico.
Ao seu lado, participa Bárbara Carine — mãe, mulher negra cis, baiana, professora, escritora, empresária, palestrante e influenciadora conhecida como @uma_intelectual_diferentona. Graduada em Química e Filosofia pela UFBA, é mestra e doutora em Ensino de Química pela UFBA/UEFS e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Idealizadora da Escola Maria Felipa, primeira escola afro-brasileira do país, Bárbara é autora do best-seller Como ser um educador antirracista, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Educação. Sua atuação articula produção acadêmica, escrita e comunicação digital, ampliando o debate sobre raça, educação e transformação social.
“Ao reunir essas duas trajetórias, o Margem da Palavra propõe um encontro potente entre literatura, educação e pensamento crítico, ampliando a escuta sobre as narrativas que constroem o Brasil. Em diálogo com o tema do aniversário do Centro Dragão do Mar, o programa destaca a importância de reconhecer as Matildes que sustentam histórias, territórios e futuros possíveis, fortalecendo a cultura como espaço de memória, resistência e reinvenção”, explica Camila Rodrigues, superintendente do CDMAC.
Para Suzete Nunes, superintendente da Bece, a edição reforça o papel das bibliotecas públicas na promoção de debates urgentes e na valorização de narrativas historicamente invisibilizadas. “A Margem da Palavra reafirma o compromisso da Bece com a democratização do acesso à leitura e com a construção de espaços de escuta e reflexão crítica. Ao colocar em evidência figuras como Matilde, o programa amplia repertórios e contribui para que mais pessoas se reconheçam nas histórias que ajudaram a construir o Ceará e o Brasil”.
Além disso, antes e após o encontro, haverá apresentação da DJ Lolost, cofundadora do coletivo Numalaje e da Festa Crioula. Seu trabalho é marcado pela mistura de forró de favela, funk e aparelhagem paraense, criando uma sonoridade própria e conectada com as vivências da juventude preta e LGBTQIAP+ de Fortaleza.
Não existe Chico sem Matilde
Matilde Maria da Conceição, mãe de Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, desapareceu dos arquivos históricos e é devolvida à memória coletiva ao se tornar protagonista e ícone da temática de aniversário de 27 anos do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Foi, supostamente, uma labirinteira da praia de Canoa Quebrada, em Aracati, e, sem dúvida, a responsável por tecer o caráter do filho, sua tenacidade e seu senso de justiça social. Vem dela o conjunto de valores do homem tornado símbolo da luta coletiva em prol da abolição de pessoas escravizadas no Ceará oitocentista, aquele que entrou para a história como o Dragão do Mar.
Matilde, a labirinteira cujos pedaços de história até hoje sobrevivem na memória e cultura oral das labirinteiras de Aracati. Uma delas também é homenageada no aniversário do Centro Dragão do Mar: Maria Beatriz Andrade da Cunha, a Dona Bia, mestra labirinteira de 87 anos, que conta sobre uma provável Matilde, matriarca de uma família monoparental que, acompanhando à distância a trajetória do filho Chico, àquela altura já dono de jangadas e prático-mor do porto de Fortaleza, fez coro à sua luta abolicionista, participando de quermesses junto à Igreja e às chamadas Senhoras da Caridade, a fim de arrecadar fundos para o movimento em ebulição.
Hoje, Matilde também é a representação emblemática da inumerável legião de mulheres afro-brasileiras que se equilibram entre a afirmação e a negação da vida, denunciando, com fibra e ímpeto de resistência, o racismo estrutural e o ranço violento da desumanização na sociedade das exclusões.
“Evocar Matilde, tanto no aniversário quanto nesta edição do Margem da Palavra, é um gesto político e simbólico, reconhecendo a cultura, a memória e as lutas históricas vivenciadas por mulheres como possibilidades de imaginar futuros melhores. O que queremos afirmar é que as transformações sociais têm raízes profundas nas trajetórias de mulheres que semearam caminhos para a reconstrução de um país cujo passado histórico ainda ressoa no presente quando constatamos a existência de um patriarcado e racismo estrututurais”, explica Camila Rodrigues.
Serviço
Margem da Palavra – Especial “Não existe Chico sem Matilde” | 27 anos CDMAC
Data: 22 de abril (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Minianfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Entrada: Gratuita