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Fabiano dos Santos Piúba: Se intera, Fortaleza!
Sex, 13 de Abril de 2018 10:31

FOTO: PROJETO É O GERA

Ninguém vê o pôr do sol olhando para a Aldeota. Para contemplá-lo, temos que mirar pro lado do Pirambu, Barra do Ceará, espraiando nossos olhos numa geografia que se estende para além da cidade vertical, girando em 360 graus por entre Grande Bom Jardim, Jangurussu, Curió, Vicente Pinzon, Poço da Draga, Oitão Preto e tudo o que há entre eles. A cidade que nos interessa é a periferia. Ver e sentir sua topografia implica em fixar outras margens. Como disse certa vez o professor André Haguette, “temos que nos aproximar da periferia por questões éticas e não por medo”.


Para além da aproximação temos que vivenciar a periferia por questões éticas e estéticas e não pelo medo de uma cidade apavorada. Não dá mais para pensar a cidade apenas com olhares iluministas do centro para periferia, do Meireles para o Jangurussu, da Aldeota para o Conjunto Palmeiras, da Praia de Iracema para o Bom Jardim, das Academias para as Ruas. Existe uma topografia poética que está sendo descrita nas periferias de Fortaleza. Uma topografia visível e invisível, dizível e indizível com uma dinâmica própria orgânica, criativa, produtiva e pensante. No entanto, é preciso mais que olhos para enxergar seu relevo que vem sendo palmilhado por meninos e meninas dos coletivos de juventude e artes com seus corpos vibrantes e espíritos livres.


São jovens que vêm tentando transformar suas realidades entre o medo da morte e a esperança da vida, acreditando na força das palavras e das artes como se elas fossem coletes à prova de balas.
São frágeis e vulneráveis ao tempo que fortes e vigorosos. Jovens que acreditam nas artes porque, de alguma forma, elas mudaram suas vidas. Como a arte estendeu suas vidas, querem estender essa experiência para outras pessoas. Como ninguém dá conta da beleza sozinho – a gente precisa do outro para vivenciá-la – esses jovens compartilham suas belezas artísticas. Os saraus e rolés são as traduções com maior relevo dessa topografia. A moçada canta rimas, dança seus corpos leves, colore muros e declama seus próprios poemas, guarnecidos de metáforas e de versos potentes. Muitas vezes, o andamento de seus versos lembram o ritmo alucinante de tiroteios, um cortejo cadente do maracatu, uma rima de rap. Noutras, os versos são como um silêncio inquieto depois de um corpo abatido.


O fato é que a moçada está lendo e escrevendo a cidade numa tentativa de reinventá-la. São seres artísticos e políticos interagindo diferentes mundos e experiências com suas comunidades; mobilizando ideias, estilos de vidas, práticas sociais, modos de percepção, objetos e linguagens nos corações e mentes das pessoas. Transformando cenas e cenários da cidade. Por essa razão e sentimento que a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará vem dialogando e construindo com essa moçada caminhos de potencialização de seus coletivos.


Mas enquanto escrevo e você lê este artigo, eles estão lá, ali e acolá, aqui e agora, golpe a golpe, verso a verso, contrapondo o tempo de violência com tempos de cultura, vibrando seus corpos e espíritos libertários, guerreiros e amorosos. Por isso dizemos: Se intera, Fortaleza! Como no verso da canção de Ednardo, temos que poupá-los do vexame de morrerem tão moços. Ou, como na poesia de Belchior, “deixemos de coisas, cuidemos da vida / senão chega a morte ou coisa parecida / e nos arrasta moço sem ter visto a vida”. E toda vida é sagrada, assim como é sagrado todo o solo de Fortaleza.
Fabiano dos Santos Piúba é morador da Maraponga, mestre em História, doutor em Educação e secretário da Cultura do Ceará.


FABIANO DOS SANTOS PIÚBA
SECRETÁRIO DE CULTURA

Fonte: Artigo publicado no Jornal O Povo no dia 13 de abril de 2018

 

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