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Encantados de luta e de poesia: Valter Hugo Mãe dançou o toré na tribo dos índios Anacé, "os anfitriões originais do Brasil"
Seg, 17 de Abril de 2017 18:00

 

 

Ele parte do Ceará nesta terça-feira, 18/4, levando na bagagem muitos, muitos livros, uma escultura de um índio comprada no Mercado Central, um cofrinho presenteado por uma fã que juntava moedinhas para comprar livros, uns merecidos discos com músicas de Alberto Nepomuceno e quem sabe uma rede e um par de armadores para pela primeira vez em uma delas se deitar... Mais do que tudo isso, o escritor português Valter Hugo Mãe regressará levando consigo o carinho, o afeto, a admiração e o desejo de pronto retorno, expresso nas palavras e nos sorrisos de milhares de pessoas que com ele se encantaram nos tantos momentos em que brilhou nesta XII Bienal Internacional do Livro do Ceará.

Nesta segunda-feira, o escritor, que já havia provocado uma comoção coletiva no sábado, em sua primeira participação na Bienal, ao percorrer os corredores da Bienal calçando chinelos e autografando tantas obras que ganhou o apelido de "Máquina de assinar livros", em alusão a seu romance "Máquina de fazer espanhóis", tomou um rumo diferente. Embarcou, na "Bienal Fora da Bienal", para um mergulho na história de contrição e no presente de luta dos índios, os verdadeiros brasileiros. Quantos simbolismos, quantas metáforas, quantos paradoxos, quantas possibilidades inscritas em um encontro de um português, em uma tribo indígena, no Ceará, mais de cinco séculos do "descobrimento" que a história formal assim registrou e que a história crítica cuidou de revisar?

Desde o primeiro contato com o jovem e sábio índio Climério, da tribo dos Anacé, residentes em três grandes comunidades em distritos de Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza, ficaram claros o respeito e o desejo de Valter Hugo Mãe de, ao contrário do que fez também em sua segunda participação na Bienal, no domingo, quando dividiu o palco com o pernambucano Marcelino Freire e a cearense Socorro Acioli, escutar. Mais do que falar.

Acomodado na van que o levaria do hotel na Beira-mar à comunidade dos Anacé, cercada de verde e cortada por um riacho sagrado, Valter, que elogiava Cartola e cantarolava Lupicínio Rodrigues ("Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim...), que em suas falas na Bienal disse esperar, desde criança, que Deus para ele se anuncie claramente, com todas as letras, já que a entidade mais importante da existência não pode prescindir da palavra, encontrou um outro ponto de vista sobre Deus, a criação e os criadores.

Derramando o olhar atentamente sobre cada palavra de Climério, enterneceu-se com a fluência do jovem ao falar de sues ancestrais, seu modo de vida, suas lições herdadas da natureza, sua forma de organização da comunidade, seus vários e graves desafios em meio a um sempre-contexto de humilhação, perseguição, ameaças de grileiros, posseiros, portadores do "papel da terra", a mesma terra que deles foi tomada há mais de cinco séculos e em busca da qual continuam a vagar, apelando em cada fala, como que num deserto infinito de surdez e incompreensão.

Encontro com o sagrado

Chegando à comunidade, onde cerca de 100 pessoas que se inscreveram no projeto Caminhos Urbanos, de Julio Lira, coordenador da Bienal Fora da Bienal, e do Centro Cultural Banco do Nordeste, aguardavam pelo diálogo histórico entre Valter Hugo Mãe e os Anacé, um momento mais reservado. Climério conduz o escritor português a uma visita a um cemitério familiar de sua comunidade. Um cemitério de crianças, ao lado das quais foi sepultado apenas um adulto, "como que para conduzir aquelas crianças". "Foi muito forte!", confirmou Valter, ao final da conversa. "Já cheguei tomado por todo aquele impacto".

Na casa grande na comunidade Japuarã, a travessia de um pequeno rio, raso no verão e sagrado para os Anacé, por já ter impedido a polícia de entrar na comunidade, segundo os dizeres dos antigos integrantes, levava a um terreiro assombreado por grandes árvores. Ali o jovem Climério uniu-se a seu pai, o cacique Antônio Ferreira, para falar a Valter sobre as dificuldades que persistem para essa gente, em pleno 2017. Ameaças, falta de assistência, dificuldades com as instituições e políticas públicas, constante assédio pelos grileiros, posseiros e especuladores, que não escondem pegadas nas muitas faixas e placas a alardear "loteamentos", "oportunidades", em letras coloridas que só destoam reforçam sua inadequação a um contexto em que a natureza, o verde, era quem deveria chamar atenção.

"Hoje nós trazemos aqui à nossa comunidade o escritor Valter Hugo Mãe, que é de Portugal. Ele está na Bienal do Livro, sendo uma figura de destaque lá, e tirou um pouco do seu tempo pra visitar a comunidade, ver a realidade de nossas comunidades indígenas no Brasil e especialmente no Ceará. Uma situação meio difícil", saudou Climério.

Sentados sobre troncos convertidos em bancos, os Anacé receberam Valter com um pequeno ritual. E dele receberam um depoimento talhado na alma. "Muito obrigado, na sua pessoas de cacique geral dessa comunidade indígena. Muito obrigado ao seu filho, que é um jovem absolutamente espantoso. Ainda não acabei a conversa com ele, porque acho que o que ele me disse vai ficar reverberando muito tempo na minha cabeça. De alguma forma talvez eu só consiga responder daqui a anos, porque acho que vou precisar de anos pra entender tudo que vocês já sabem".

Um português reverencia a cultura sobrevivente

"É muito especial, pra mim, vir aqui dessa forma. E quase que eu pediria para que isto não fosse por minha causa, porque eu acho que sou muito pouco para vossa causa. Eu, como pessoa, como alguém, sou muito pequeno para a grandeza da vossa causa, do vosso povo, de vós que aqui estão. Sinto que é muita responsabilidade. Mas eu gostaria que essa noção da responsabilidade fosse sobretudo uma noção da responsabilidade de todos nós, de toda a gente", acrescentou, mirando o grupo sentado em círculo, sobre os troncos ou no chão.

"O Brasil original"

"A sensação que tenho quando encontrei imediatamente seu filho e que venho visitar de alguma forma ao País original. Vocês são aquilo que representar o País original, o Brasil original. Vocês são o radical, são de verdade os anfitriões do Brasil, de fato quem recebe todo mundo que ocupa hoje, que vive hoje, que hoje é brasileiro".

"Vontade de futuro"

"E  por isso é muito especial. E eu sendo português, é muito simbólico que depois de tantos povos, logo o meu povo tenha vindo confundir, atrapalhar a vida dos povos originais do Brasil. É muito simbólico que eu hoje possa estar aqui e que vocês hoje possam estar aqui sem terem sido eliminados, sem que vossa cultura tenha sido eliminada. E por isso é hoje muito especial pra mim encontrarmos e saber que de algum modo vossa cultura não só resiste, mas resiste com vontade de futuro, ganas de futuro", disse Valter, sob aplausos, acrescentando que, se o procurador do Ministério Público Estadual presente na ocasião conseguir ajudar os Anacé a garantir a posse legal de suas terras, receberá "um grande pedido de amizade".

A julgar pela intensidade dos laços que Valter Hugo Mãe firmou neste final de semana com o público cearense, o procurador terá um novo melhor amigo. Boa viagem, Valter. Que volte breve e sempre ao Ceará!

 

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