Jornal: Unitário - 7/8/1966
Segundo foi noticiado, o governo estadual tenciona dividir em duas a
atual Secretaria de Educação e Cultura, a fim de criar mais uma pasta,
incumbida, especificamente, dos assuntos culturais.
Reconhecemos que o interesse dos atuais dirigentes cearenses é, apenas,
o de propiciar maior desenvolvimento a todas as manifestações de
cultura, a respeito das quais possuímos uma tradição que o patrocínio
de Estado virá, certamente, manter e provir.
Julga mais dever opor, no entanto, algumas restrições ao projeto
governamental, se bem que coincidam os nossos desejos com o interesse
acima referido, da administração. Parece-nos, contudo, que não se
justifica a criação de uma secretaria da cultura, a começar pela
própria imprecisão desse termo, segundo uma vez já comentamos nesta
coluna.
Como tal consideram-se geralmente as artes desde a literatura até a
arquitetura, que não estão compendiadas com realizações cientificas,
técnicas, filosóficas e religiosas do homem. Criar uma Secretaria de
Estado para tratar somente do incentivo às artes, no Ceará, é uma
providencia algo pretensiosa, que governos de muitos países, mais
populosos, ainda não puseram em prática. Além disso, há o aspecto
financeiro, pois mesmo se tratando de um desmembramento, é fácil
perceber que o funcionamento da nova Secretaria implicará na majoração
da despesa pública, tanto mais injustificável na atualidade, quando o
funcionamento está em atraso na percepção de seus vencimentos.
Admitindo-se que a despesa inicial fosse mínima, como instalação -
aluguel do prédio, compra de material permanente de escritório, etc -
ainda assim há uma restrição a fazer.
Com efeito, estando prestes a completar-se o atual quadriênio
administrativo, parece desaconselhável sobrecarregar-se desde logo, o
futuro governador com uma responsabilidade a mais, além das muitas que
lhe pesarão sobre os ombros como herança do seu antecessor.
Talvez o candidato ao governo haja sido consultado, e como entusiasta
das causas do ensino e da cultura tenha dado sua aprovação à medida em
apreço, porém, nesse caso, discordamos também dele. Nossa discordância
consiste em que sendo a cultura tal como é entendida, um como que
complemento do ensino - havendo quando menos, entre as duas atividades,
ambas essencialmente do intelecto, uma notória afinidade, manda a
prudência continue a convergir a parte governamental, em que ambos os
setores, na atual Secretaria como órgão único.
Isso implica em que se estruture a pasta em departamentos especifico,
porém subordinados a uma política que, antes de ser precipuamente
educacional, é cultural.
Não sabemos se ao governo atual ocorreram essas ponderações, mas
acreditamos que nenhum leitor discordará de que deveriam ter sido
feitas, antes de se pensar em um desdobramento algo auspicioso, cuja
conveniência ou não poderia, aliás, constituir assunto de estudos no
congresso de cultura, por aqui proposta recentemente.




