Jornal: Unitário - 6/11/1966
1. Foi criada pela lei nº 8.541, de 9 de agosto de 1966. Desde
muitos anos, um grupo de intelectuais pleiteava essa criação. No 1º
Congresso Cearense de Escritores, realizado em Fortaleza, já era o
assunto objeto de uma proposta apresentada pelo dr. Raimundo Girão, na
qual se sugeria "que o congresso, pelo modo que julgar mais acerado,
consiga do Governo do Estado a criação do Departamento ou Secretaria da
Cultura" e "que recomenda a cada congressista trabalhar como puder pela
efetivação da idéia, individualmente ou nas associações de que fizer
parte."
Era a primeira palavra de alerta dos homens de cultura. Duas razões os
levaram a isto. De um lado, viam-se, ostensivo, o descaso do Poder
Público Estadual para com os órgãos de cunho cultural, como a
Biblioteca Pública, o Museu Histórico, o Teatro José de Alencar e o
Arquivo Público. Sem dispor das mínimas condições de regular
manutenção, nem de melhor desenvolvimento, eles apenas sobrevivia. E
esse estado de coisas permaneceria, até hoje, lastimavelmente.
A Secretaria de Educação e Cultura era tão somente uma SECRETARIA DE
EDUCAÇÃO. Doutro lado, a Administração do Estado, preocupada com as
medidas atinentes aliais imperioso desenvolvimento econômico-social,
esquecia completamente as entidades culturais e os homens de pensamento
trabalhavam, desajudados, ao choque dos mais sérios obstáculos e sem as
devidas e mais francas estimulações. Nunca essas últimas, como tais,
foram chamadas a colaborar na direção da responsabilidade
pública.
2 - Foi quando o Deputado Plácido Castelo, homem de cultura e sócio do
Instituto do Ceará, no discurso que pronunciou como candidato da ARENA
ao Governo do Ceará, disse de maneira clara e de seu desejo de dar-lhes
tudo quanto nele estivesse, e sem qualquer hesitação acrescentou: "Para
coordenar eficazmente as atividades culturais no âmbito das
interferências do Governo do Estado será ideal criar a Secretaria de
Cultura, no que o Ceará escreveria de mais uma página no livro
majestoso de suas avançadas idéias."
Inspirados nessas palavras, o então Governador, Coronel Virgilio
Távora, dispondo da assessoria desvelada de Mozart S. Aderaldo, deu
corpo à sugestão, instituindo a nova Pasta, a que o mesmo deputado, já
agora na chefia do Executivo, quis resolutamente movimentar sem nenhuma
influência de ordem político-partidária, a fim de obter-se a realidade
tão almejada pela intelectualidade cearense.
3 - São elevados os objetivos do nosso setor administrativo, quais -
textualmente os de "executar, superintendes e coordenar as atividades
de proteção ao patrimônio cultural do Ceará, a difusão e aprimoramento
cultural do cearense, inclusive através do estímulo à iniciativa
particular, no campo da cultura e amplo incentivo ás ciências e
Artes".
Os trabalhos da Secretaria de Cultura, em sua estruturação legal,
dividem-se em três ramos: a) a Serviço de administração (comum a todas
as secretarias); b) o serviço de Patrimônio Cultural; c) o Serviço de
Patrimônio de difusão cultural.
O primeiro deles é caráter eminentemente administrativo - burocrático e
tem por finalidade "apresentação de serviços de administração geral que
se fizeram necessários à plena execução dos trabalhos da
Secretaria".
O Serviço do Patrimônio cultural objetiva: 1 - fazer e incentivar
estudos sobre os vários aspectos do patrimônio cultural do Estado; 2 -
manter serviços de proteção ao patrimônio arqueológico, histórico e
artístico do Estado ou dar cooperação a serviços ou entidades com estas
finalidades; 3 - prestar assistência a serviço e entidades de proteção
ao patrimônio arqueológico, histórico e artístico do Ceará e orientar a
utilização das subvenções e auxílios oficiais destinados a tais fins; 4
- manter serviços de publicações e informações sobre o patrimônio
arqueológico, histórico e artístico do Ceará; 5 - promover o
levantamento completo de todos os levantamentos artísticos e históricos
no Estado; 6 - Organizar e serviço de arquivo dos processos findos na
administração estadual e dos documentos e papeis em geral que
interessem à administração à História e a Geografia do Ceará; 7 -
Orientar tecnicamente a administração de bibliotecas e museus e
orientar a utilização e auxílios destinados a instituições desse
gênero; 8 - promover a biblioteconomia e a difusão do livro; 9 - manter
cadastro das bibliotecas e outras entidades existentes no Estado.
O referido Serviço distribui-se nas seguintes divisões: a) Biblioteca
Pública; b) Museu Histórico e Antropológico; c) Arquivo Público; e)
Intercambio e Publicações. Os três primeiros, com seus objetivos
específicos, serão renovados e revigorados para que de fato, atendam às
razões pelos quais foram instituídos.
Ao último caberá o trabalho de movimentar e dar mais vida a Cultura, na
área das atribuições do Estado, propiciando a realização de congressos,
simpósios, encontros, conferências, etc, e edição de livros de autores
cearenses ou de não cearenses sobre assuntos nordestinos, especialmente
os do Ceará, assim como a publicação periódica de cadernos ou revistas
de Cultura, bem apresentados graficamente e alentados e selecionados no
seu conteúdo.
Incumbe ao Serviço de Difusão Cultural; 1 - Incentivar as atividades
musicais, as de Teatro, Cinema e Televisão e das Artes Plásticas; 2 -
Promover programas culturais, através do Rádio, cinema, Televisão e
outros meios de divulgação; 3 - Organizar, dirigir e orientar excursões
culturais e turísticas com o fim de difundir as Ciências, as Letras e
as Artes nas diferentes regiões do Estado ou fora deste e promover o
intercâmbio cultural entre o Ceará e as demais unidades da Federação; 4
- coordenar e estimular as atividades turísticas tendo em vista o
melhor incremento das nossas curiosidades e atrações naturais, dos
nossos empreendimentos reveladores de progresso em todos os sentidos,
dos nossos hábitos e costumes e das peculiaridades históricas e de
folclore; 5 - fazer da Casa Juvenal Galeno o grande centro intelectual
da administração do Estado, promovendo ali reuniões de cunho literário,
artístico e cientifico.
4 - O Serviço de Patrimônio Cultural e o Serviço de Difusão Cultural
constituirão os órgãos executivos do PLANO CULTURAL e das deliberações
do conselho de cultura, que, na verdade, será o máximo planejador,
orientador e inspirador das atividades propriamente culturais da
Secretaria.
5 - Compõe-se o Conselho de Cultura de seis (6) membros, e outros
tantos suplentes, sob presidência do Secretário de Cultura este com o
voto de quantidade e desempate. Reunir-se-á quatro vezes por mês e
estudará e resolverá, por maioria de votos, tudo quanto se relacionar
com o plano cultural. Não é, pois, um colegiado meramente consultivo.
Cada conselheiro, com o seu suplente, representa os seguintes setores
culturais formadores do CONJUNTO DA CULTURA, em seu conceito mais
exato. 1 - Ciências Naturais; 2 - Ciências Sociais; 3 - Literatura; 4 -
Artes Plásticas; 5 - Arte de movimento (Teatro, Cinema e "Ballet"); 6 -
Música.
6. No Plano Cultural, elaborando para cada ano pelo conselho, inclui-se
como item da maior importância das relações da Secretaria de Cultura
com as entidades cultura existentes no Estado - Academia Cearense de
Letras, Instituto do Ceará, Instituto de Filosofia, Comissão do
Folclore, Sociedade de Fotografia e Cinema, Instituto Cultural do
Cariri, Academia de Estudos e Letras de Sobral, etc, bem assim o
sentido de alto e sincera interesse pela criação de novas entidades
desse tipo, a começar pelas cidades de maior condensação de elementos
de culturais, como por exemplo, Baturité, Crateús, Iguatu, Juazeiro do
Norte, visando-se, com isso, expandir e popularizar o mais possível o
Ceará, as coisas da cultura e prestigiar e ajudar nossos intelectuais -
cientistas, literatos e artistas - no seu anseio de divulgar ou
publicar as produções da sua inteligência. Quer a nova Secretaria,
realmente, albergar aspirações daqueles, em meio hostilmente
desinteressado, persistem bravamente em empreender e realizar, isolados
e os mais das vezes descoroçoados. 7. Em resumo, a Secretaria de
Cultura será um dinamizador cultural, sem pretender obrar milagres nem
cair em devaneios, porém encarando com realismo nosso "problema
cultural" e procurando dar-lhe solução com a parcimônia dos meios de
que dispõe, usando dessa tenacidade e força de realização que tanto
caracteriza o homem do Ceará, em constante luta com adversidade física
do pedaço de terra em que o destino o colocou. Ela, indiscutivelmente,
escreveu "mais uma página no livro majestoso das avançadas pioneiras"
da terra de José de Alencar.




