Jornal: O Povo - 26/02/1969
A Secretaria de Cultura foi modelada visando a suas finalidades bem
medidas as coisas e não empiricamente.
No seu organograma estão um Departamento de Administração, que é
dirigida pelo Dr. Stênio Carvalho Lima e tem a seu cargo a prestação de
serviços de administração geral e outros de natureza propriamente
cultural: o Departamento do Patrimônio Cultural, o Departamento de
Publicações e Documentação, o Departamento de Difusão da Cultura e o
Departamento de Turismo. O pessoal desses Departamentos foi recrutado
noutras repartições, em grande parte. Integram ainda a estrutura da
Secretaria de Cultura, o Conselho de Cultura e a Junta de
Planejamento.
Ao Departamento do Patrimônio Cultural, sob a direção da Dra. Maria
Teresa Sampaio Leite subordinam-se a Biblioteca, o Museu Histórico e
Antropológico, o Museu São José de Ribamar, em Aquiráz, destinado ao
resguardo da arte da religiosidade, criado em absoluto êxito pela
Secretaria, e o Arquivo Público Meneses Pimentel. Todos eles
devidamente recuperados e agora condignamente instalados e capazes de
receber a visita de quem quer seja, inclusive daqueles que nunca já
foram, mas recriminam... O Departamento do Patrimônio Cultural possui
uma divisão, a de Tombamento a quem incumbe a proteção ao Patrimônio
Histórico Paisagístico, Artístico e Bibliográfico, da mais
indispensável necessidade e para cuja objetivação já a Secretaria
conseguiu fosse votada a Lei nº 9109, de 30.7.68. Com esta lei,
deseja-se preservar o nosso passado e as nossas tradições tão
desgraçadamente descuradas por um povo, como somos nós indiferentes ao
valor e a espiritualidade dessas tradições e daquilo que os nossos avós
puderam construir, legando-nos... Para que o destruamos.
Ora dirigido pelo escritor e acadêmico Braga Monte-Negro, cabe ao
Departamento de Publicações e Documentação, como a própria denominação
indica, assegurar tanto quanto possível, comprovação das nossas
manifestações culturais, nas suas inúmeras modalidades, - documentos,
iconografia, gravações, etc. e, igualmente dar à publicidade cadernos
de cultura, reedições de obras valiosas e edições novas anuais.
Revistas, através de cujas páginas se possa aquilatar com acerto o
quanto é capaz a inteligência cearense, nos domínios do conhecimento
humano.
A revista "ASPECTOS", órgão oficial da Secretaria, vale pelo conteúdo
de seus trabalhos e sua apresentação gráfica; e as edições já
distribuídas de obras cuja publicação se tem encarregado o Departamento
mostram como bem se poderá realizar algo mesmo sem a disponibilidade de
grandes quantias. Através dessas publicações - muita gente ignora ou
faz por ignorar - o nome do Ceará cada vez mais se projeta no cenário
nacional e mesmo no estrangeiro, para onde elas são enviadas e de onde
são constantes os pedidos de remessa. A este Departamento coube
reeditar FATOS DE LINGUAGEM, de Heráclito Graça; a OBRA POÉTICA, de
Antônio Sales, e uma monografia a MACUMBIRA, do professor M. Negreiros
Bessa.
Esse setor foi página lamentavelmente branca, na realidade inexistente,
enquanto o Departamento de Cultura pertenceu à Secretaria de Educação e
Cultura.
Cabe ao Departamento de Difusão de Cultura movimentar as atividades
cientificas, as literárias-folclóricas e as artísticas. Dirige-o, o
acadêmico e professor Otacílio Colares. As atividades cientificas tem
como sede, por via de convênio, o Instituto do Ceará, ao qual a
Secretaria vem dando positiva colaboração, mantendo ali funcionários
especializados seus, encarregados de organizar e catalogar a sua
opulenta biblioteca e sistematizar os seus arquivos. Têm como sede a
Casa Juvenal Galeno, hoje pertencente ao Estado, as atividades
literárias e folclóricas, sempre animadas e em progresso, graças ao
dinamismo de sua Diretora, a acadêmica Cândida Maria Santiago Galeno,
funcionária da Secretaria.
A Casa de Raimundo Cela, criada e corajosamente instalada pela
Secretaria de Cultura, é o centro das atividades das artes plásticas e
se expressa como vitorioso esforço para congregar e estimular uma
juventude tocada do espírito da arte e que até então vivia desgarrada,
desprotegida, sem meios e modos de realizar seus ideais.
Exposições de pintura e escultura ali se realizam ou são promovidas
pela Casa, numa demonstração de que, se não como era de desejar, o
Estado se preocupa com o desenvolvimento das Artes Visuais. A grande
animadora dessas atividades e promoções é D. Heloísa Juaçaba. As
atividades da Música e do Teatro têm por centro o Teatro José de
Alencar, confiadas ao Maestro Orlando Leite. A nossa maior casa de
espetáculo, de propriedade do Estado, mas tombada pela Diretora do
Patrimônio Histórico a Artístico Nacional é objeto das mais cuidadas
atenções de parte da Secretaria e para a sua total recuperação o
Orçamento do Fundo de Desenvolvimento do Ceará consignou verba bem
alentada para o corrente ano. O levantamento dos serviços a serem ali
feitos para o satisfatório funcionamento do Teatro está sendo concluído
por alunos da Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará,
sob a orientação do engenheiro José Liberal de Castro, representante do
Ceará daquela Diretoria.
João Ramos tem a seus ombros organizar e dar vida ao Departamento de
Turismo. Sem poder contar, até o presente, com os elementos
imprescindíveis a uma efetiva realização no plano turístico, muito
coordenou e planejou nesse sentido, tendo já feito o levantamento de
nosso potencial turístico. O turismo é hoje necessidade cultural e
econômica dos povos. Há deles que se alimentam notadamente do que podem
oferecer aos turistas, cada vez mais ansiosos de ver novas gentes,
novas paisagens, novas hábitos e costumes. O Ceará tem o que lhes
apresentar e há pressa na preparação da infra-estrutura básica do
Turismo. Por certo essa preparação será lenta e custosa, mas de
qualquer forma, deveremos concorrer paulatinamente para que o
forasteiro se sinta atraído pelas nossas peculiaridades. Turismo é
investimento, seja ele o turismo de veraneio (baseado nas praias), o
turismo técnico (turismo nobre), turismo estudantil, o turismo de
congresso, o turismo esportivo, etc. Completando o quadro estrutural da
Secretaria, está o Conselho Estadual de Cultura constituído de nove
membros.
A composição desse Conselho por si representa uma expressão de cultura,
tal o porte intelectual dos seus participantes: Carlos Studart Filho,
José Guimarães Duque Braga Montenegro, Antônio Girão Barroso, Manuel
Albano Amora, Manuel Eduardo Pinheiro Campos, Orlando Leite, Heloísa
Juaçaba, Oswaldo Riedel. Reúne-se assiduamente uma vez por semana e
trabalho na base da mais elogiável dedicação e entusiasmo - discutindo
e resolvendo os assuntos que lhe vêm ao conhecimento. O Presidente do
Conselho como membro nato, é o Secretário de Cultura - que nada percebe
por aquela função. Vê-se por tudo isto como a Pasta de Cultura nasceu
dum imperativo de ajustada organização administrativa e dum melhor
atendimento, por parte do Estado, aos reclamos culturais de nossa terra
e, portanto, só elogios e louvores podem merecer aqueles que
contribuíram para a sua instalação e manutenção.
Se poucos são os elementos financeiros de que pôde ela dispor até
agora, decorrente o fato das dificuldades do erário estadual, caso será
de procurar-se incentivar o trabalho da Secretaria e nunca,
desavisadamente, fazer por extingui-la.
Tal extinção, que seria triste prova de atraso cultural, um recuo
deplorável, nenhuma vantagem da ordem financeira traria à situação do
nosso Tesouro, pois órgãos formadores da Secretaria autônima se
retornariam à subordinação da Secretaria de Educação, continuaram a
existir, por indispensáveis, com o seu pessoal e as suas despesas de
manutenção, e passariam a VEGETAR, como dantes, sem a coordenação, sem
a coordenação e o zelo especial que ora vêm recebendo.
Não há, pois nenhum razão para qualquer negativismo em relação à
Secretaria de Cultura, cujas realizações são de fato indiscutíveis e
cujo renome, por força dessas mesmas realizações já ultrapassadas as
fronteiras cearenses e já tem ressonância em todos os meios culturais
do Brasil. A iniciativa pioneira da sua criação constituição
inegavelmente mais uma afirmação da tenacidade do cearense.




